Artes que se movem
- Memória e Ditadura nas escolas do DF
- 16 de ago. de 2021
- 6 min de leitura
Atualizado: 4 de out. de 2021

Mais comum quando falamos do período ditatorial militar no Brasil é pensar nas músicas e nas peças de teatro que foram feitas como sinônimo de resistência nesses 21 anos, mas você já se questionou onde estavam os pintores? O que aconteceu com as artes visuais durante esses anos todos? Nesse texto vamos explorar o lado das artes visuais que, como veremos, não deixam de se unir com o teatro, a música e até mesmo a moda.
A produção visual feita durante os 21 anos da Ditadura Militar aqui no Brasil é chamada de Arte de Guerrilha, movimento paralelo ao Tropicalismo cujo dois dos participantes mais famosos são Cildo Meirelles e Hélio Oiticica. Curiosamente a produção visual se juntava a música e ao teatro no chamado Festival de Inverno de Ouro Preto, evento que acontece até nos dias atuais e começou como projeto de extensão da UFMG; Era um mês inteiro de teatro, música, pintura e esculturas, mas como era possível um evento desse porte acontecer? E a censura? Não existia então? Como era possível o acontecimento de um evento desse porte nesse contexto de repressão? A passagem a seguir é bem esclarecedora nesse ponto:
“Não houve uma censura durante o regime militar, mas duas. A censura da imprensa distinguia-se muito da censura de diversões públicas”, explica Fico (2004, p. 36) sobre uma das interpretações para o Golpe de 1964 e o fio condutor da argumentação segundo o qual, a censura da imprensa acompanhou o auge da repressão (quando se pensa em cassações de mandatos parlamentares, suspensões de direitos políticos, prisões, torturas e assassinatos políticos) que se verificou entre finais dos anos 1960 e início dos anos 1970. Em relação à censura de diversões públicas, o apogeu ocorreu no final dos anos 1970, quando houve os conflitos entre setores mais conservadores da sociedade e as questões relativas às mudanças comportamentais como o movimento hippie; a liberalização das práticas sexuais e as manifestações artístico-culturais das vanguardas”
Sendo assim, até o decreto do AI-5 cada peça de teatro, música, escultura ou pintura feitas passavam pelos olhos da censura, quando não eram aprovadas, quando se notava qualquer sintoma contra os pilares que a ditadura havia instaurado, esses artistas eram presos/ exportados, um dos casos é o do grupo estadunidense Living Theatre que, ao apresentar Paradise Now, uma peça semi-improvisada onde os atores gritam o que é ser livre “to be free”, foi preso e logo depois expulsos do país. Você pode assistir um pequeno trecho da peça logo abaixo:
Nesse mesmo contexto do festival Ouro Pretano também foram produzidas as seguintes obras:


“Portanto, num tempo em que o corpo era perseguido, fragmentado, isolado, arruinado e dissecado, anulando qualquer possibilidade de matéria, as artes visuais brasileiras, em diferentes circunstâncias e ações, direcionavam suas práticas para essa leitura do real. Em 1968 a II Bienal de Salvador é fechada um dia depois da sua abertura pelo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), por conta da presença de “trabalhos subversivos”, e só é reaberta faltando dois dias para o seu término. Em 1969 a exposição da Pré-Bienal de Paris no MAM/RJ que contava com os trabalhos que seguiriam para a Bienal francesa foi impedida de ser aberta pela censura. ” (Kaminsky,2016)
Ao lado e acima partes da obra manifesto de Artur Barrio chamada Situação T/T

Mesa Executiva 1 (1975), de Regina Silveira; uma das poucas aparições femininas que encontrei. Em: bbc.com
Outro episódio marcante relacionado foi o cancelamento da Bienal de São Paulo, da qual a obra abaixo participaria.

Repressão outra vez (1968), de Antonio Manuel. Em: bbc.com
“Em 1967, o DOPS recebe a denúncia de que obras subversivas encontravam-se expostas no IV Salão de Arte Moderna do Distrito Federal... A maior suspeita do que a polícia entendia como subversão naquele Salão era a obra Che (1967) de Claudio Tozzi – um retrato em cores pop do mártir cubano. Quando a polícia chegou ao Salão, nós [o júri] dissemos que caso eles retirassem os trabalhos [“subversivos”], o Salão seria fechado por completo. Nesse momento, a polícia desistiu. (MORAIS, 2009)” in (Kaminsky,2016) Se comparamos essa passagem com a anterior podemos notar a mudança de comportamento da polícia com apenas um ano de diferença e a instauração do AI-5.
Quando consideramos que a moda é, também, uma forma de expressão de si que os estilistas usam, podemos facilmente concluir que a moda é uma das formas em que a arte se manifesta. E como todas as outras formas de expressão artística que vimos anteriormente, a moda brasileira durante a ditadura também foi revolucionária, irreverente e denunciadora do regime que controla o país.
Um dos exemplos femininos do movimento é Zuleica (Zuzu) Angel. Sua jornada começa com ela sendo costureira para mulheres da classe alta, tal possibilidade foi dada pelo projeto trabalhista que começa com Vargas e, de maneira diferente, continuada por Juscelino Kubistchek; recebe reconhecimento pela sua criatividade e originalidade; a costura, objeto comum do universo feminino na época, leva Zuzu a ser uma estilista renomada e, mais tarde, após a morte de seu filho pelas mãos da ditadura, extremamente politizada.
“Na coleção, em particular, o que ela faz é estetizar e estilizar as experiências sociais e políticas vivenciadas pelos/as jovens do país em que as liberdades de viver e de se expressar conquistadas no início da década de 1960 estavam condenadas à morte nas prisões (daí os bordados das grades); aos esmagamentos de “anjos”, símbolos dos/as jovens entre os quais estava seu filho, pelos tanques e fuzis do regime militar. ” (Simili; Pinguedo Morgado,2015)

Se aproximarmos a imagem do vestido branco veremos também aviões, uma referência aos presos que eram jogados destes, e o vestido preto é o vestido que Zuzu usou para finalizar seu desfile na semana de Nova York, símbolo do luto por seu filho. “Sua produção foi incrementada com os símbolos de seu luto, de sua dor e da dor que sofreu seu filho. Eram conhecidas do público de Zuzu as estampas floridas e coloridas, mas neste desfile a passarela foi invadida por pássaros em gaiolas, balas de canhão, tanques, quepes, pombas negras e anjos mortos. Foi então que os anjos passaram a predominar em todas as suas coleções posteriores. Ao fim do desfile, Zuzu surge na passarela com veste fúnebre, crucifixos na cintura e um anjo de porcelana no pescoço. ” (Simili; Pinguedo Morgado,2015).

Assim, podemos ver a presença das artes visuais na dança e na moda, em telas estáticas e as que se movem junto com a artista (as roupas). É muito diferente, principalmente se comparamos ao contexto que permeava as artes nos anos anteriores à ditadura, como resume a passagem encontrada no blog Memórias da Ditadura: “Se, durante os anos 1950, havia um otimismo da arte nacional em relação ao desenvolvimento do país, como nos mostram o concretismo e a construção de Brasília, nos anos 1960, a palavra de ordem era romper com todos os padrões do “sistema”. Assim, é fácil perceber as inúmeras mudanças nas significações do que é arte entre essas décadas e do para que se fazia arte: “no âmbito pessoal, porém, a repressão fez com que Cildo e outros artistas mudassem seus rumos criativos. Ele lembra de como interrompeu investigações que vinha fazendo, que tinham foco mais formal, para fazer obras de forte cunho político, como “Quem Matou Herzog?” (1975) e “Tiradentes: Totem-monumento ao Preso Político” (1970).” (Carneiro,2018)
*Se você se interessou em saber mais sobre a figura de Zuleica, há alguns anos o Itaú Cultural fez uma exposição em homenagem a ela e, portanto, tem uma matéria pra lá de incrível no site deles com diversas fotos e entrevistas, o link se encontra nas referências.
REFERÊNCIAS:
Artes Plásticas na Ditadura. in Memorias da Ditadura. http://memoriasdaditadura.org.br/artes-plasticas/. Acesso em: 9 de Agosto de 2021.
Carneiro, Júlia. 50 anos do AI-5: artistas censurados contam como a repressão influenciou suas obras. BBC, 2018. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/geral-46546686 Acesso em: 10 de Agosto de 2021.
Eu sou a moda brasileira. In Itaú Cultural. https://www.itaucultural.org.br/ocupacao/zuzu-angel/eu-sou-a-moda-brasileira/. Acesso em 10 de Agosto de 2021.
100 anos de Zuzu Angel: relembre as criações mais icônicas da estilista. In Vogue. Globo. https://vogue.globo.com/moda/noticia/2021/06/100-anos-de-zuzu-angel-relembre-criacoes-mais-iconicas-da-estilista.html. Acesso em 10 de Agosto de 2021
Scovino, Felipe. DRIBLANDO O SISTEMA: UM PANORAMA DO DISCURSO DAS ARTES VISUAIS BRASILEIRAS DURANTE A DITADURA, in 18º Encontro da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas Transversalidades nas Artes Visuais – 21 a 26/09/2009 - Salvador, Bahia, pp.1847-1861
Simili, Ivana Guilherme; Pinguello Morgado, Débora Tecidos, linhas e agulhas: uma narrativa para Zuzu Angel Revista Tempo e Argumento, vol. 7, núm. 15, mayo-agosto, 2015, pp. 177-201
Kaminsky, Leon. Teatro, liberdade e repressão nos Festivais de Inverno de Ouro Preto, 1967-1979. In Varia Historia, Belo Horizonte, vol. 32, n. 59, p. 327-355, mai/ago 2016
Rodrigues, Walace. Arte de guerrilha no Brasil ditatorial: O caso das produções de Cildo Meireles e Hélio Oiticica pela via filosófica de Giorgio Agamben.in PALÍNDROMO Nº 8 /2012

Sarah Mylles Alves de Oliveira, estudante de História
Muito legal, não sabia que a moda também entrava na resistência. Gostei demais, parabéns!!